SAIR DO ARMÁRIO


BLOG DESTINADO A HOMOSSEXUAIS E BISSEXUAIS QUE QUEIRAM PARTILHAR EXPERIÊNCIAS DE VIDA.

sábado, 24 de maio de 2008

Confissão dum adolescente

O Miguel, era o aluno que sempre me parecia o mais atento. Os seus olhos expressivos, denunciavam algo que a principio não conseguia entender. No final de cada aula era sempre ele o último a sair, acompanhando-me até à sala de professores. Pelo caminho falava-me de pormenores que se prendiam com as matérias que iam sendo abordadas. Isto repetiu-se durante todo o ano lectivo. Eu notava que não era por acaso que isso vinha a acontecer. Só mais tarde consegui entender exactamente o que escondia aquele excesso de interesse em se aproximar de mim, mesmo quando nos cruzávamos nos corredores da escola.
Não era um aluno excepcionalmente dotado para as artes visuais, mas a atenção que demonstrava e o empenho que sempre revelava nos trabalhos que lhe propus, proporcionaram-lhe boas classificações no final de cada período escolar.
Depois da última aula do ano, o Miguel disse-me que sentia pena que o ano lectivo tivesse terminado e que gostaria muito de falar comigo. Respondi-lhe que dissesse então o que queria. Depois de hesitar, disse-me que gostaria de o fazer mas fora da escola.
Acabei por aceder à proposta. Fomos para um café. Como o Miguel ia divagando entendi perguntar-lhe o que me queria dizer.
De uma forma tímida, disse-me que tinha perdido o pai havia alguns anos, que a mãe voltara a casar-se, mas que se relacionava de uma forma difícil com o padrasto. Evitava falar em casa sobre o que quer que fosse. Como gostava bastante de mim, queria “confessar-me e pedir-me ajuda numa coisa, desde que eu prometesse que não falaria disso a ninguém”. Comprometi-me a assumir a promessa. O Miguel de uma forma rápida disse: - Professor, sou gay.
Ficámos por instantes em silêncio. Perante a sua revelação, disse-lhe que não havia nenhum mal nisso, mas que não entendia porque me tinha feito essa confissão.
Respondeu-me então que nunca tendo falado disso a ninguém e que sentia necessidade de ter uma pessoa mais “madura” que o pudesse ajudar a ultrapassar a sua homossexualidade, já que não confiava no padrasto e tinha muito medo contar à mãe por não saber como esta reagiria. Sabia que só num médico poderia encontrar a solução e era nisso que esperava da minha ajuda.
Fi-lo entender que a homossexualidade não é uma questão patológica. Logo, não existiria nenhum médico que o “curasse”. Não devia sentir-se diminuído, mas compreender a sua diferença. Nem mesmo um psicólogo evitaria que continuasse ou não a ser homossexual, quanto muito, poderia ajudá-lo, levando-o a aceitar e a conviver com essa diferença. Mas a melhor ajuda, seria ganhar coragem e contar à sua mãe, quem sabe se não encontraria nela uma aliada? As mães são sempre bem mais receptivas face a estas questões
Por mim, a partir daquele momento, estaria disponível para o escutar sempre que necessitasse e dar-lhe a minha ajuda. O que veio a acontecer muitas vezes.
Hoje, o Miguel faz parte em Portugal, de um grupo muito activo na defesa da causa homossexual!


Anónimo
(Enviado por um leitor)

domingo, 4 de maio de 2008

PORTUGAL HOMOFÓBICO

Não obstante a homossexualidade ter vindo a ser abordada em novelas, programas televisivos, notícias nos meios de informação, a maior parte da população portuguesa entende as relações entre adultos do mesmo sexo como erradas, segundo um estudo realizado pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, de acordo com o título de primeira página do Jornal Público, na sua edição de 03 de Maio de 2008.
Depois de um inquérito realizado, através de 3643 entrevistas, feitas a nível de Portugal continental, verifica-se que 70% de inquiridos entre os 16 e os 65 anos, considera erradas as relações homossexuais.
Esperar-se-ia que a população mais jovem fosse mais receptiva a esta orientação sexual. No entanto, segundo o mesmo estudo, os mais jovens reprovam-na num número bastante significativo, nunca inferir a 53%.
Os homens são os mais críticos, manifestando pela sua “masculinidade homofóbica”, uma reprovação em 58,9%, relativamente à homossexualidade dentro do seu sexo em contraste com os 53% , quando são questionadas as mulheres.
Continuamos perante um grave problema da não aceitação do direito à diferença por um número bastante significativo da população portuguesa, no que concerne à orientação sexual.
Não sei como foram abordados os inquiridos e como foram dadas as suas respostas, se pessoalmente ou via telefone. No entanto, dever-se-ia possibilitar que estes respondessem ao inquérito de forma sigilosa, o que conferiria uma maior veracidade nos resultados finais, atendendo a que continuamos a estar perante um tema tabu na sociedade portuguesa.


A falta duma disciplina de educação sexual nas nossas escolas e a possibilidade de aí ser abordado esta temática, bem como nos meios de comunicação, com uma maior frequência, principalmente nas nossas televisões, que por excelência chegam mais facilmente ao grande público e enquanto as religiões não passarem a ter um papel mais tolerante perante aqueles que professam uma sexualidade diferente, não os entendendo como pecadores ou “filhos de um deus menor”, não se desmistificará a homossexualidade e continuar-se-á a criar sempre a ostracisação de muitos portugueses, empurrando-os para guetos, negando-lhes o direito à diferença e impossibilitando-os de também poderem ser felizes. À sua maneira!

(Luso)